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domingo, 15 de agosto de 2010

Por que as avós não são restauradas?

Por que as avós não são restauradas?
Silvia Trevisani

Ela era uma heroína. Não havia Saci-Pererê, Mula sem Cabeça, Lobisomem, assombração, cobras que engoliam gente viva ou qualquer outro ser desses que deixam o coração de criança pulando igual a um macaco, que ela não enfrentasse. Não corria e não tinha medo de nada.
Naquela época, poucas famílias possuíam internet, computador ou vídeo game, não existia essa concorrência que roubasse à atenção dos pequenos, no entanto, tínhamos a vó Rita, e ela era um orgulho para nós, pois, nenhuma criança na redondeza tinha uma avó com uma alegria tão viva, assim, como um “brinquedo” animado que nos causava um sei lá de contentamento.
Vó Rita era magrinha, sem nenhum dente, as rugas disputavam espaços naquele rosto tranquilo, mas que hoje, entendo o quanto era sofrido. Destacava-se por um par de olhos azuis, comparados às bolinhas de gude que brincávamos na rua. No entanto eram brilhantes como as estrelas. Lembro-me que ela usava vestidos florais coloridos e rodados para disfarçar a magreza.
Vó Rita era viúva e morava um pouquinho na casa de um filho, um pouquinho na casa de outro filho e assim, ela levava sua vidinha.
Quando chegava a época em que ela vinha para nossa casa, era esperada com muita alegria. Ela trazia na memória a beleza dos rios e das fazendas, enveredada nas lendas do Saci-Pererê, da Mula sem cabeça, do Lobisomem e assim, conhecemos o folclore e todas as fantasias, através das histórias que ela contava. E cá pra nós, até hoje, estou convencida que ela viveu tudo o que contava, tamanha a realidade que ela colocava nas coisas que falava.
Após o almoço, ela sentava-se na poltrona da nossa casa humilde e transformava aquilo em um grande teatro, tudo ficava colorido na imaginação infantil. As crianças sentavam-se a volta dela e ninguém mais cochichava, nem cochilava. Pequeno é bichinho que corre de lá pra cá de cá pra lá, mas quando a vó abria a boca e começava uma história, ninguém mais se mexia, e os olhinhos nem piscavam porque a qualquer momento o Saci poderia sair debaixo da cama ou detrás da porta e assoviar no ouvido da gente. Ficávamos todos atentos, esperando por ele, e por incrível que pareça sempre tinha um que jurava que o tinha visto. A cada dia uma história nova, e quando ela terminava tinha moleque roendo as unhas e com medo de voltar para casa.
Até o dia em que a vó Rita foi se entristecendo, disfarçando a dor, mas não controlando os gemidos, na mesma poltrona que serviu de palco para a contadora de história. Ouvi meu pai falar para minha mãe, que o estômago dela estava tomado por uma doença horrível, e pensei confiante:
— Por que ela não faz com a doença horrível o que fazia com o Lobisomem e não põe a doença para correr? Porém, o câncer impiedoso a venceu. E numa manhã ela encerrou a sua turnê aqui na terra e nunca mais vimos o brilho nos lindos olhos azuis.
Ela foi convidada para contar histórias no céu e nunca mais voltou.
Hoje meus filhos pediram para levar o computador para formatar e pensei:
Por que as avós não são restauradas? — E chorei de saudade!

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