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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cupido Sui Generis

Cupido Sui Generis - in Tardes de Prosa
(Uma linda história de amor)
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins


Eu o conheci há cinquenta e três anos, quando nasci.
Esbelto, bonito, expressivos olhos verdes a mostrar semblante suave e bom caráter. Orgulhoso por sua mais recente conquista, a paternidade, declarava-se por meio de gestos e palavras, duplamente apaixonado. A primogênita era naquele momento, seu segundo grande prêmio. O primeiro, um verdadeiro amor ao primeiro olhar, o qual lhe assegurou uma vida plena, era ela, minha mãe, sua querida “patroa” como a designava, so¬licitando-lhe a participação ininterrupta nos pequenos e grandes feitos familiares.
A história, que desde pequena ouvia dos seus lábios, me atraía. Segundo ele, meu contador de causos, tudo começara em 1939, numa escola rural de Ibitiruna, estado de São Paulo.
Recém formada pela Escola Normal “Sud Mennucci” de Piracicaba, à busca de realizar seu sonho como educadora, para lá se dirigira a bonita e tímida normalista, enfrentando as alegrias e obstáculos naturais na vida de professora naqueles idos. Mais ainda em se tratando de uma escola isolada e distante.
Como num quadro pintado por consagrado artista, cercada por muito verde, à frente de um convidativo goiabal, ficava a Escola Caiada com suas janelas curiosas, permitindo a cada um dos usuários maravilhar-se com a natureza em flor. Numa daquelas oportunas janelinhas debruçara-se a jovem mestra, de sorriso acanhado e olhar angelical, a fim de apreciar junto a seus alunos, como por obra do destino, a bela cena campestre: imensa e valiosa boiada, conduzida por distinto e simpático tropeiro.
Por sua vez, o condutor da boiada jamais pudera imaginar que, ao atravessar tão grande extensão de terra, depararia a pouquíssima distância com quem, naquele simplíssimo educandário, viria a ser seu desejado amor, a companheira por toda sua vida.
Uma luz divina tocou a ambos. Houve reciprocidade e seus olhares se encontraram à procura de um sentimento maior. Seus corações acelerados reagiram. Nascera, naquele instante, às 8:45 de uma manhã clara de abril, um verdadeiro amor. Deus o abençoou enfeitiçando a alma daquele solteirão que até então, aos quarenta anos, não encontrara a mulher dos seus sonhos. Pois lá estava ela, como sempre pedira aos céus: tímida, delicada, olhar expressivo e amendrontado ao mesmo tempo. Algo naquela jovem o conquistara fortemente. Seria o jeito singelo gracioso, sua meiguice com os alunos ou a tônica do seu olhar? A partir daquele momento suas vidas se comprometeram, passaram a ser tomadas por sonhos... Ele armazenando ideias montado em seu cavalo baio, ela a tecer seu humilde e bonito conto de fada. Era uma história de vida e amor acontecendo entre o boiadeiro solitário e a jovem e delicada professora.
Iniciou-se o romance que teve dois anos de duração, idílio este vivido com muita cautela e seriedade. Casaram-se em cerimônia simples, ele aos quarenta e dois, ela aos vinte e quatro anos de idade. A feliz união entre eles permitiu-lhes “saudável ninhada de sete filhotes”.
Até hoje entre seus descendentes sente-se o efeito do amor vivido por seus pais, nascido em 1939, forte e consistente por quarenta e sete anos, quando Deus convidou para Sua companhia o bondoso patriarca que soube honrar seu lar e família e como legado deixou o nome digno e o carimbo da escola que fundou: a do amor.
Ela, a dócil viúva, honra-me com sua grata presença e distrai-me com as lembranças amorosas vividas por ela e seu fantástico esposo desde aquele furtivo encontro abençoado, quando, bem à frente da escola mágica, como se fosse um sábio cupido, surgira aquele enorme rebanho contando dois mil, duzentos e cinquenta bois...

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