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domingo, 29 de agosto de 2010

A Bolsa

A bolsa (e continua caindo)
Gabriel Araújo dos Santos

Meu irmão, mais velho que eu — tem 85 anos — mora lá nos confins das Gerais, mil quilômetros daqui. Além de tudo, somos compadres, mas ele nunca me liga.

Sozinho no casarão da fazenda, ele mesmo côa o seu café adoçado com rapadura, e prepara o guisado — como se fala por lá.

Não é ignorante. Um desapegado.

Não consegue lidar com as teclas do telefone que os filhos deram de instalar na fazenda, no intuito de amenizar-lhe a solidão, que ele não sabe o que é isso.

“O duro é a sodade” — às vezes me confidencia — a saudade da companheira de tantos anos...

Nos fins de semana, lá da rua — cidade — vem o filho e vem a nora, e também as duas netas, meninas ainda, suspiro de sua vida, costuma dizer.

Quando liguei pra ele, dei de enveredar para os assuntos da bolsa de valores, ao que ele entendeu que a alça da minha bolsa havia se arrebentado, ou escapulido.

“Pode ficá sussegado, sô, que eu tenho aqui um couro todo ispicial, que curti nem sei mais quando, e na hora cocê vié aqui traz ela, que vou dá um jeito, e tenho até uma fivela, daquelas de prata, e vai ficar uma tetéia, uma belezura!”

Limitei-me a aceitar sua oferta, que era sincera demais, com o que se sentiu todo animado, e está lá, com certeza já aprontando a alça para a minha bolsa e aguardando minha chegada, que não sei quando.

Não me atrevi a corrigir-lhe o engano, enchendo-lhe a mente das balbúrdias do mundo financeiro, logo ele, que às sete da noite já se recolhe para rezar, e dedilhando tranquilo as contas do terço contempla os mistérios da Virgem Mãe de Deus.

Lá fora, na curralama, o gado esterca e muge, ruminando macaúba, enquanto o monjolo retumba forte e grosso, pilando os punhadinhos de arroz para o consumo diário.

Embalado pela sinfonia de sapos e rãs que habitam os brejais, vara sem temor à noite que ali é mais espichada, enquanto o resto do mundo clama por mais tempo, tempo de perdas e ganhos, conquistas e derrotas, poucos ou nenhum sonho realizado, eis que não dormem, e às vezes nem tempo de amar lhes sobra, tais os atropelos e as artimanhas do mundo dito globalizado...

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