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quarta-feira, 28 de julho de 2010

No seio da imensidade


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NO SEIO DA IMENSIDADE
Carlos Moraes Junior

Tem vezes que as palavras criam vida e escapam da pena repartindo-se em milhares de pequenos seres animados, que pairam no ar por um mero instante, antes de se enfiarem novamente dentro das capas que formam suas letras de origem. Tem vezes que os pensamentos aparecem como pequenas luzes que piscam intermitentes, uma de cada vez, numa sucessão infinita de combinações, como se estivessem transmitindo alguma mensagem silenciosa, mas inteligível, cifrada à moda dos códigos, mas capaz de ser decodificada facilmente por olhares atentos, vivos de curiosidade.

Tem vezes que a inspiração acaba justamente no ponto final, nesta marca obscura e acinzentada, que representa a cessação do tempo, como se tudo o que se conhece se condensasse no sinal gráfico definitivo. Cessa o tempo presente e volta o que de maravilhoso aconteceu. Lembranças pequenas, grandes lembranças, fatos engraçados e românticos, sempre entremeados de sorrisos e de palavras de afeto e gestos de amor.

Tem vezes que a lembrança mais importante, aquilo que mais interessa, é o sabor de uma fruta, que retorna ao paladar, após anos de ausência, é o ciciar monótono e mesmerizado dos insetos, que tenta aplacar o calor do meio-dia, ou o delicioso toque de uma água de regato fresquinha e límpida.

Tem vezes que o ar que nos rodeia se irisa, como se a luz que passasse por ele fosse capaz de nos fazer respirar em cores, para que o nosso interior se iluminasse, como se tivéssemos engolido um ar-íris etéreo e diáfano. Tem vezes na vida que olhamos para o céu, marchetado de bilhões de pontinhos luminosos, mas somente nos interessa a luz prateada de uma estrela solitária, que nos olha para desvendar segredos escondidos, coisas que só contamos para nós mesmos, em minutos de solidão absoluta. Tem vezes que o universo inteiro cabe dentro de um olhar de soslaio, que inadvertidamente, lançamos como se fosse um satélite-espião, capaz de trazer de volta léguas de vazio, de frio congelante e escuridão.

Tem vezes na vida que a aragem vem do oceano junto com o sereno e traz no seu arfar cálido e nuançado a fragrância da infinitude natural que nos rodeia. A ramaria da mata, intrincada como se fora quilômetros de cipoama, de todos os tipos e espessuras, a formar na tela do espaço um trançado multicolorido. Espalhados num infinito oceano verde milhares de pássaros, conhecidos, desconhecidos, saúdam a madrugada, despedem-se do dia que se deita na cama púrpura do arrebol, como um coral de trinados harmoniosos e compassados.

Tem vezes que a felicidade me toma por completo e me transformo no menino travesso, que trilhava as capoeiras atrás de passarinhos, de pitangas perfumadas e de jabuticabas madurinhas. Tem vezes que o coração pula dentro do peito, como se fosse uma jaguatirica brincalhona. Tem vezes que as mãos, que passeiam rápidas pelo teclado, processando idéias, escrevem frases que ficam luminosas e se tornam um enxame de pirilampos fluorescentes capazes de clarear a noite mais escura.

Tem vezes que a minha vida parece um passeio de lancha. A velocidade me toma, envolve e agasalha meu corpo E lá vamos, eu e ela abraçados, deixando atrás de nós uma esteira de espuma branca como algodão-doce. Tem vezes que eu me sinto parte do todo que me rodeia. E como um habitante, um espectro ou forma geométrica, que se aproxima do divino, bebo estrelas, mastigo luz, com o mesmo apetite de um bebê que suga o seio da imensidade.

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