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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Redenção de Eva

REDENÇÃO DE EVA (in Tardes de Prosa)
Dulce Ana da Silva Fernandez

Ainda hoje o papel intelectual da mulher na sociedade
brasileira não corresponde à sua verdadeira importância”.
Luiz Rufatto- escritor e jornalista

Após flagelo amarelo, com tantas mortes acontecidas em sua morada, nas últimas semanas, Maria Antonieta, corajosa mulher italiana, sentiu fugirem momentos felizes vividos no primeiro casamento. Restava somente um travo de amargura no coração.
A terra havia se fechado sobre entes queridos, que, embrulhados em lençóis, foram levados em carroças sobre cadáveres amontoados: sem flores, sem velórios e sem despedidas. Somente ela e a criança que carregava no ventre conseguiram sobreviver.
O clima de sofrimento, revirando melancolias, transformara-se num invólucro de desespero: De quem ouvir conselhos? Olhares meigos, mãos acariciantes, ombro amigo? A bondosa mãe, tão distante, lá na Itália...
Sozinha no Brasil! Grávida! Agora, a sua própria vida era um milagre! De um sonho tenebroso despertava. Pesadelo! Onde esperanças de um futuro promissor? Nada.
Triste viúva! Abalada com as ocorrências. O que a esperava e o que queria, como mulher, daquela época? Sua maior preocupação, para se manter de cabeça erguida, estava num outro casamento, nova união.. Alguém que oferecesse companhia e bem-estar, principalmente para a criança que iria nascer. E para tão grande e significativo acontecimento na sua vida, pedia bênçãos de Deus. Não tinha alternativa.
Não hesitou, pois poderia, a partir de outro casamento, enfrentar com mais segurança as dificuldades que fossem surgindo.
Quem seria o companheiro? Podia ela perguntar-se. E já sabia a resposta: que embora, desconhecido, era a pessoa mais importante do mundo, e no momento, nenhuma mulher talvez a compreendesse...
Naquele tempo era o juiz de Paz da cidade quem cuidava das aproximações. Ajeitava os casais... Arrumou então, um italiano trabalhador como o consorte ideal.
Aguardava que ele lhe desse apoio, base segura com amparo e tranquilidade. E o casamento foi realizado. Sem mesmo ela ter tido tempo para sonhar. “Oh! meu Deus”...
Olhos sem brilho de noiva. Sem comer doce fatia de bolo de casamento. Apenas à espera da bondade, da mão amiga... Mesmo assim, a sua alma estremecia de gratidão.
Orientada para o casamento e a maternidade, Maria Antonieta sabia que mulher sem virtudes não podia ser nem esposa nem mãe.
Novo companheiro, afável e amoroso! Nada a perder. A lei dos homens estava ali para protegê-la. Deus quis assim e, assim foi feito. Seria boa esposa e boa mãe
Primeiros tempos de casada. Ele a reconhecia como eficiente e prestativa esposa.
Alguns meses, após o segundo casamento, era de madrugada, quando sentiu as dores do parto e chamou a parteira...
Parto normal. Belo menino repousava ali, ao seu lado na antiga cama de ferro, sobre colchão de penas de galinha, forrado por modesto lençol de saco alvejado, coberto por colcha terminada em franjas. Luiz fora o nome escolhido. A criança fitava-a com um par de olhos claros e tranquilos.
Alguns dias de molho, nem era bem uma dieta Pressa de sair do resguardo e fazer os trabalhos de casa, embora ficasse de meias e sem lavar a cabeça por quarenta dias. Gostava nesse tempo da canja grossa feita com a gorda galinha caipira. Tinha medo de alguma sequela da dieta, de ficar doente. Dar trabalho! Nem pensar!
Casada. E o pequeno ser? Aceito. Bem recebido pelo esposo no modesto lar. Então, a solidão desapareceu dos frágeis ombros. Chama da autoconfiança, felizmente flamejou...
Os anos se passaram e Maria Antonieta mantinha o bom humor e a vitalidade, mas sempre em débito com ela mesma, renunciando a si própria, abrindo mão de tantas coisas.
Embora para Rufatto, ”Ainda hoje o papel intelectual da mulher na sociedade brasileira não corresponde à sua verdadeira importância”, a cada dia, a figura feminina se renova. Vem galgando novas posições, transpondo obstáculos e rompendo velhos preconceitos. Obteve com muita garra as maiores conquistas. Revolução na vida profissional? Sim. E em seu papel na sociedade.
Adeus aos velhos modelos como o de Maria Antonieta, minha avó, que foi um belo retrato da mulher do começo do século passado.
Enfim! Eva conseguiu livrar-se, em grande parte, das penas do inferno.

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