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domingo, 9 de maio de 2010

Sina de Mãe - Conto


Sina de mãe
Ivana Maria França de Negri


Ainda na infância, ela já se preparava para o seu destino. Ao brincar com as bonecas, instintivamente, treinava para se tornar mãe. Ninava-as, acalentava-as, era toda ternura. Cresceu, adolesceu, tornou-se linda jovem. Apaixonou-se, namorou e se casou com o grande amor de sua vida.
O tempo passou célere, e o primeiro fruto do amor se fez semente em seu ventre. A barriga volumosa, como uma lua cheia, trazia o sentimento da plenitude. Quando o filho nasceu, um vazio tomou conta dela ao sentir o útero oco, mas logo a criança preencheu-lhe os braços, sugando os seios, ávida pelo seu leite, e voltou a sentir-se plena.
Outros vieram, saudáveis, risonhos, queridos, carne de sua carne, sangue do seu sangue. Tudo tão rápido! Logo caminhavam pelas próprias pernas, falavam e pensavam por si. E a jovem mãe continuava a mimá-los, a preocupar-se com seus resfriados, com os esfolados nos joelhos, com os “galos” na testa, com suas roupas, com as tarefas escolares.
A adolescência chegou de repente e eles já não precisavam de sua presença constante, nem de seus cuidados excessivos. Preferiam a companhia dos amigos. Estavam descobrindo o mundo e ela já não era tão necessária como antes.
Um dia seus rebentos deram o grito de independência e, um a um, foram embora. Iam estudar noutras cidades, noutros estados e até fazer cursos em outros países. E ela, sempre contando os dias que faltavam para os fins de semana, para as férias, quando se esmerava nas comidas preferidas e ficava a lavar, passar e a pregar botões nas suas roupas.
Num belo dia, eles se afastaram para sempre de seu convívio. Nem finais de semana, nem férias. Chegara a sua vez de serem pais e mães de seus próprios rebentos. E ela sentia os braços vazios, a casa silenciosa. Convivia apenas com os ecos das vozes infantis que povoaram aqueles espaços e ainda preenchiam seus sonhos.
Mas chegaram os netos, verdadeiros oásis de felicidade no deserto que se tornara sua vida, quando vinham para ela cuidar. Parecia que seus filhos eram crianças novamente e se enchia de alegria. Repetia o carinho, os cuidados e dedicava-lhes imenso amor.
Mas o tempo cruel, roubava-lhe as forças, a saúde, a agilidade e a memória às vezes fugia. O caminhar tornava-se cada vez mais lento e a visão piorava a cada dia. Os braços cansados, já não seguravam o bebê com firmeza, as pernas trêmulas, não obedeciam. Ela já não servia mais para cuidar dos pequenos e babás mais jovens vieram para substituí-la.
O marido, fiel companheiro de tantas alegrias e também dos percalços, faleceu, e a casa ficou enorme, vazia, insuportável. Como um ninho abandonado quando as avezinhas criam asas e alçam vôo para não mais retornar.
Um dia colocaram-na num carro e a levaram para um lugar arborizado, bonito até, mas nele não havia calor humano, parecia um depósito de velhos imprestáveis como ela, e o inverno parecia estacionado naquele local frio, sem vida e sem cor.
Não reclamou. Dava razão a eles. Tinham muito trabalho, faziam muitas coisas e não tinham tempo para gastar com ela. Dos olhos baços verteram lágrimas, mas secou-as rapidamente com as costas da mão para que ninguém visse. Conseguiu armar um sorriso e, num último esforço, levantou os braços e acenou com as mãos deformadas pela artrose e os abençoou: “Vão com Deus, meus queridos, ficarei bem. Venham me visitar quando der”.
E sua vida restringiu-se a longos dias cinzentos de espera inútil. O que ocupava seu tempo eram as recordações. Estas sim, eram fartas, coloridas, e aqueciam e preenchiam seus derradeiros dias e jamais a abandonaram até o último suspiro.

Um comentário:

Adenize disse...

Esse retrato está pendurado,cravado nas "paredes" de muitas casas.Penso que, entre tantos desafios que a maternidade sugere ou impõe, a mais importante missão é ensinar que todo ser humano merece respeito. Uma vez aprendida essa lição quando não estivermos mais no contexto da utilidade vivermos,em paz, o contexto do Siginificado. Abraços