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terça-feira, 4 de maio de 2010

Há Poesia na Guerra?


Há poesia na guerra ?
Carmen M. S. F. Pilotto

(glosando o mote proposto por minha amiga Ivana Negri)
Carmen M.S.F. Pilotto


O coração de um poeta se estraçalha em perceber que a violência tem sido a grande tônica no mundo contemporâneo. O poeta, de coração benevolente, gostaria de compartilhar de um mundo esteticamente perfeito. Devemos compreender que a guerra faz parte de um processo depurativo que o ser humano necessita para sua evolução.

Valendo-se de citações sobre o que significa poesia podemos adentrar aos mais profundos pensares: "A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical", (René Waltz, apud Massaud Moisés, A Criação Literária - Poesia, Ed. Cultrix). "A poesia é a expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal", (J. Middleton Murry, apud Massaud Moisés, op. cit.) “A poesia é o "extravasar espontâneo de poderosos sentimentos", (William Wordsworth, prefácio à segunda edição de Lyrical Ballads, 1800). Basil Buting, poeta inglês contemporâneo afirma que a grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.

Complementando, o palestino Mourid Barghouti afirma que "Há lugar na poesia tanto na guerra quanto na paz", poeta de mais de 14 livros de poesias publicados, pertence ao país ocupado por Israel, conhecido por seu valor literário, fora do mundo árabe. Ele afirma que: “os poetas palestinos lutam para manter a beleza estética que a poesia demanda e um equilíbrio entre essa beleza estética e as questões atuais dos dias de hoje. E a poesia árabe palestina está atualmente num posto muito alto no contexto da poesia moderna. Acho que há lugar para a poesia, na guerra como na paz, nas tragédias, calamidades e desastres. A poesia nunca vai desaparecer. Basta observar quantos poemas foram escritos nas prisões em toda a história. Ou quantos poemas foram contrabandeados em países que estão sendo bombardeados. Poesia não é entretenimento feito em tempos de paz, mas é uma companhia para nossas almas, enquanto vivermos. Não tenho medo que isso pareça poético. O que tenho medo é do desaparecimento dos poetas, do ruído dos Apaches e dos tanques passando por cima das pessoas”.

Lembrando a última palestra de Ferreira Gullar em Piracicaba, ocorrida em 2008, o grande poeta brasileiro, exilado em seus afãs de contestador social, afirmou que a poesia é a dor transformada em beleza estética que faz sorrir o poeta após a catarse, sentimento que compartilho plenamente.

Em minha opinião, o poeta que descreve guerras assume um papel de mea culpa, tentando expor seu estranhamento pelas atitudes de seus pares. O que choca deve ser sangrado em ferida para tentar acordar o mundo de sua inércia. Trata-se uma arma chamada palavra que pode, numa última cartada, alertar os que ainda possuem algum resquício de senso de compaixão. São os exércitos de escritores que usam mensagens subliminares para resgatar os verdadeiros valores. Para mim aí está a força da poesia.

Lembro de alguns poemas com a idéia proposta, como Rosa de Hiroshima de Vinícius de Moraes ou do livro Sentimento do Mundo de Carlos Drumond de Andrade entre outros.

Quisera, também, como poeta só poder declamar o poema de Thiago de Mello, cujo Artigo I resume toda nossa intenção de humanidade:

“ Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira”

Mas a vida, cara amiga, não é feita só por decretos de poetas pacifistas; conforme resume minha sogra, uma grande sábia:

“A vida é o que se apresenta”...

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