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terça-feira, 27 de abril de 2010

A xícara azul


A Xícara Azul
Adenize Maria Costa

Na cristaleira da sala ficava ela , uma linda xícara de porcelana pintada de azul, recoberta por uma camada que aumentava o brilho e conferia as vezes um tom furta cor .Ao seu lado uma outra xícara mesmo tamanho e formato pintada de rosa .Mas a que mais me atraia era a xícara azul.
Raramente minha avó usava essas xícaras. Ficavam guardadas para as visitas ou para ocasiões especiais.Eu ,ainda pequena, olhava desejosa de poder um dia ter tamanho suficiente para pode tomar um delicioso café com leite na xícara azul.
Ainda menina , por volta dos meus seis ou sete anos perguntava à minha avó se quando me casasse me daria a xícara de presente de casamento. A resposta as vezes vinha num sorriso ou apenas silêncio que eu ,ansiosa, interpretava como sim e ficava imensamente feliz. Outras vezes ela me olhava e dizia ; “Mas e se até você se casar a xícara quebrar?” E eu dizia : “ Do jeito que a senhora cuida dela ela não vai quebrar nunca e a senhora sabe que eu quero ela de presente de casamento”.
Esse assunto sempre vinha à tona quando ficávamos sentadas na sala ouvindo rádio, que mais chiava do que qualquer outra coisa , ou quando minha avó tirava as louças da cristaleira para limpá-las. Anos e anos depois de muita insistência, um dia minha avó me disse : “Ta bom, no dia em que você se casar pode vir em casa pra buscar a xícara.”
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo... Corri até minha avó , pulei em seu pescoço e comecei a beijá-la ... Minha avó era uma mulher muito séria, brava não gostava de muitas liberdades. Ela me repreendia e me beijava com olhar ... Ensaiou uma bronca pelos meus modos , mas não teve tempo porque aproveitei a oportunidade e pedi também uma panela de ferro que sido de sua mãe, minha bisavó Paulina . Minha avó achou graça e disse : “Ta bom! Pode levar mas acho que seu marido não vai gostar de ter tanta coisa velha dentro de casa “. Nem liguei para esse comentário, estava feliz demais pra pensar nisso , até porque eu já tinha garantido o mais lindo presente que podia ganhar em toda a minha vida: a xícara azul !
O tempo passou , não custou a passar , mas minha avó sucumbiu ao peso do tempo, ao peso da vida sofrida que teve. Uma vida inteira de trabalho duro, trabalho na roça. Ficou viúva ainda muito jovem mas carregou com destemor, com bravura a responsabilidade de criar seus três filhos .Infelizmente nos deixou no mesmo no ano em que me casei ...
Quando retornei da viagem de núpcias passei na casa em que minha avó morava ,onde meu tio, irmão caçula de minha mãe,ainda morava e conservava tudo do mesmo jeito , era como se minha avó ainda estivesse lá. Meu tio sabia do nosso acordo e me autorizou a pegar os meus presentes .Fiquei desapontada ao ver que minha xícara servia como bebedouro numa das gaiolas de passarinho. Pensei na xícara rosa, seu destino foi pior porque há muito tempo tinha sido quebrada. Minha linda xícara azul perdera o tom furta cor, perdera o brilho mas para mim carregava uma beleza que não sabia descrever. Lavei minha xícara peguei minha panela de ferro e fui para a minha nova casa, começar uma nova vida. Naquele momento toda a minha vida estava pintada de azul ...
Logo em seguida, minha vida ganhou novas cores com o nascimento do meu filho.Diariamente sorvia minhas porções de felicidade, as vezes, numa simples xícara de chá ou de café com leite.
O tempo passou, e ainda bem que passou porque nossa vida acontece no tempo que passa ... E nesse tempo experimentamos as quedas, as perdas, feridas que se tornam cicatrizes, as alegrias , as tristezas as derrotas, as vitórias enfim tudo o que nos confere a condição ímpar de viver .
Ainda tenho minha xícara azul, hoje , a beleza que ela contém representa a lembrança da minha infância pobre, simples mas com muita alegria, união, respeito pelas pessoas, principalmente pelos mais velhos. Lembrança de felicidades pequenas escondidas numa bala de fita, num cheiro impregnado no ar de tacho de doce de abobora apurando no fogão de lenha, cheiro de café coado em coador de pano, o farfalhar da palha do colchão da cama da minha avó. Enfim me faz lembrar a minha avó e tudo o que ela representa na minha vida: aquela figura miúda,de pouca estatura , sempre com chapéu de palha ou lenço na cabeça. Trazia sempre um avental preso a cintura, as mãos grossas, calejadas pelo trabalho árduo... quando já bem velhinha pegava minhas mãos e dizia: " Que mãos bonitas! Parece mãos de professora!"...
Como é bom aprender a olhar além das aparências porque para mim essa xícara é revestida de lembrança, saudade e de amor . Para quem apenas vê não passa de uma velha xícara azul .

22 comentários:

Anne Lieri disse...

Ivana,que conto lindo e comovente!Cheio de lembranças tão doces!Ficou maravilhosa essa xícara azul!Bjs,

Letícia Oliveira disse...

Tiaaa...que bom ler as suas histórias aqui! Parabéns pelo sucesso!! Bjos!

Marli disse...

Tule, é tão bom trazer do passado lembranças tão boas, de pessoas tão fortes e ao mesmo tempo tão doces, como Vó Maria. Que saudades da paçoca......Impossível não chorar!

Beijos

Tirio

Aline - Filhota disse...

Adê.... linda a história da xícara azul.......estou torcendo muito parabéns!!!!!! bjos

Anônimo disse...

Prezada Adenize:


Linda sua xícara azul. Tenho uma cristaleira repleta de xícaras de avós, mães e tias que contam também histórias de mulheres bravias que enfrentaram galhardamente vidas de dificuldades. Adoro olhar cada uma delas e saber que temos as cores do arco-íris e somos representantes condignas de gerações que se foram. É isso que irá salvar o mundo deixando exemplos de pessoas de caráter e fibra.

Compartilho emocionada com você a linda história de seus ancestrais e seus valores.

Carmen

Ivana Maria França de Negri disse...

Oi Adenize

Contamos com sua presença nas próximas reuniões do Golp. Apareça!
abrs
Ivana Negri

Magali disse...

Ade,

Que bonito; quantas saudades, eta adolescencia gostosa. Imagine se chorei.... Parabens e sucesso. Bjs.
Magali

Silvia disse...

Adenize meus parabéns,seus contos estão maravilhosos estou adorando muito mesmo que uma pessoa como você faça parte de um blog desse. Esse conto me faz lembrar muito de meus avós. Está de parabéns. Sucesso continue escrevendo cada vez mais.

Fábio Lara disse...

Dê felicidades nessa sua carreira. Vcê merece e muito meus sinceros votos. Lindo conto ... Não esquece de mim Bjos

Anônimo disse...

Meus sinceros parabéns minha cara está lindo seu poema. Sucesso

Marcos disse...

Belas palavras.

Jessica disse...

Parabéns lindo conto.

Vania disse...

Impossivel não se emocionar com esse conto e a saudade não bater. Parabéns

Lu disse...

Nossa, cheguei a ficar emocionada, ainda mais que, certa vez, vc me contou essa história! Lindo, muito bem escrito, admirável! Parabéns Dê, e não deixe de escrever, vc tem o dom!

WAL COSTA disse...

PARABÉNS MINHA IRMÃ NÃO SABIA QUE VC TINHA ESSE DOM VOLTADO A LITERATURA, TEMOS QUE ACHAR A XÍCARA DA DONA MARIA DIONIZIO E TAMBÉM A PANELA DE FERRO,TEMOS VARIOS CONTOS DA D.MARIA TAMBÉM CONTADO PELA NOSSA MÃE D. ALCINDA, ENFIM SOMOS UMA FAMILIA DE ARTISTAS, QUE O Sr. JOSÉ FIRMINO COSTA SE FOSSE VIVO COM CERTEZA FICARIA MUITO ORGULHOSO(que Deus o tenha)...

marcos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marcos disse...

Ade,
Como diria Chaplin: "O Homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar', vou um pouco além desse pensamento, morremos quando deixamos de sonhar, por isso, sonhe a vontade, acredite em seus ideais, acredite em seu futuro, ele está aí, dentro de si mesma, basta dar asas e ACREDITAR.
Parabéns!

Lucy disse...

Maria,

ADOROOOOOOOO!!!!

Acredite e corra atrás do seu sonho, vai valer a pena!!!!!

lucy disse...

Acredito que Deus preparou uma caminhada de sucesso e vitorias para sua vida, é só voce buscar!!!
Bj

Ligia disse...

Madrinha,

Adorei seu conto, vc tem mto talento. Acredito em no seu potencial. Sucesso. Bjoos

Vinícius Batista disse...

Parabéns pelo conto, muito bom e muito nostálgico, já o li umas 3 vezes e sempre me traz uma antiga lembrança...

Vinícius Batista disse...

Parabéns pelo conto, muito nostálgico, já o li umas 3 vezes e sempre me remete a uma antiga lembrança... muito bom mesmo!