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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Quero morrer sem saber que morri

Quero morrer sem saber que morri
Plínio Montagner

Que desejo estranho é esse. Quem morre, é claro que não sabe que morreu. (Ou sabe?). E é certo também que ninguém gostaria de saber quando vai morrer. Pelo menos eu não quero. Credo! Algumas pessoas otimistas que minimizam a morte dizem que existe o lado "bom": vão se encontrar com o seu Deus, as dores e as angústias terminam - e as dívidas ...Mas... será que é bom só porque os sofrimentos acabam e não tomamos mais remédios? Ninguém sabe o que há do lado de lá; todo mundo "chuta".Outra coisa - se acabam as coisas ruins, não acabam também as boas? Ora, então é melhor ficar por aqui mesmo. Não dá nem para imaginar ficar sem a companhia e o afeto de nossos pais, filhos, netos, esposa, marido, avós, amigos. E mais, como abandonar nossos discos e livros, nosso jardim; não ouvir mais O Trem das Onze, Besame Mucho, Brasileirinho, Moonlight Serenade, e Lupicínio, Chico, e Choppin...? Dá arrepios. Que se dane a morte. Vou morrer contra minha vontade, eu sei, e quando chegar o dia não quero saber que morri; não quero álbuns nem flores nem a bandeira do Corinthians. Inferno? só faltava essa, além de perder coisas boas daqui ainda precisamos tomar cuidado para não passarmos algum tempo no inferno? Caraca! Seja lá para aonde a gente for (se formos mesmo), acho que as belezas do céu serão bem diferentes das daqui. É claro que não tem praia, barulho de chuva, flores, pastel, pudim de queijo, cerveja e a beleza feminina. Então, vai ter o quê?Querem saber? vamos nos esforçar para permanecermos vivos o mais tempo possível, mesmo com chefe ruim, salário de fome, um monte de impostos, pobreza e dorzinhas aqui e ali. Não inventaram até essa máxima? - "Se morrer é descansar, prefiro viver cansado".Hoje vi no quintal do meu vizinho o que sobrou de um imponente pé de jaracatiá. Agonizante, seco, galhos caídos, tronco cheio de formigas e outros bichos. E ainda, sem nenhuma cerimônia, um pica-pau tirando proveito. Tuc-tuc-tuc! Toc, toc, toc!O francês Lavoisier estava certo: tudo se transforma: nada se perde, nada se cria, nada permanece nem fica do mesmo jeito. Um dia seremos um corpo à disposição dos bichinhos que a gente vê nos microscópicos.Infelizmente valorizamos meio tarde a família, a paz e a saúde. E só percebemos quando nossos créditos estão acabando, a diabete se instala, o coração muda de ritmo e outras doenças aparecem. Isto lembra a história do cesto de jabuticabas. Quando está cheio, os frutos menores, feios, defeituosos são deixados de lado; mas na medida em que vai se esvaziando são saboreados devagarzinho, até o caroço. Nesses momentos os ateus desaparecem do mapa. Acreditam em tudo, em todos os deuses e santos. Dizem que quando um avião está caindo não existe nenhum ateu dentro dele...Não é fácil identificar o essencial. Por isso desperdiçamos tempo valorizando o supérfluo e vitórias bobas. Uma companhia de qualidade é o que vale; a boa cepa é que é o essencial, não o rótulo, não a taça nem o guardanapo.

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