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domingo, 18 de abril de 2010

Paralelas


PARALELAS
Sidney Netto Parentoni
(Conto selecionado em segundo lugar no 7 o Prêmio Escriba de Contos)


Primeiro um breve movimento das antenas. Parecia sentir a textura da folha. Depois a procura pelo jeito certo. Posicionadas as tesouras, dava início ao corte. Não buscava uma forma definida.
Mas tinha que ser capaz de suportar o pedaço destacado. Tenta ajeitar a carga. Tinha que achar o ponto de equilíbrio. Pendia muito para a esquerda. Não ia dar conta de seguir adiante. Muda de novo a posição. Tenta outra forma de carregamento. Agora sim, a situação estava sob controle. Arrastou-se pelo primeiro galho.
Caminho tortuoso, íngreme. Tateava procurando a forma mais segura de prosseguir. Bem que poderia trabalhar no circo. Mistura de equilibrista e malabarismo, descia de cabeça para baixo no tronco rugoso. Ganha o chão. Já era meio caminho andado. Vinha
agora a parte mais fácil. Seguir pela trilha em disparada, carregando seu tesouro. Cruza com as companheiras pelo caminho.
Um toque suave e reconhecem umas às outras. Chega à porta do túnel. E some. Daí em diante, tudo eram mistérios. João da Luanunca soube ao certo o que acontecia lá em baixo. Ao homem comum, era dado o poder de contemplar as maravilhas sobre a terra. As profundezas do chão e as nuvens do céu eram território dos deuses. Imaginava o que podia se passar ali. Saber ao certo estava acima de sua capacidade. A ele, bastava ir até onde os olhos podiam ver. Que o além cuidasse do que andava oculto.
João da Lua ficava horas observando as formigas. Admirava sua força. Carregavam folhas muito maiores que seu corpo frágil. Respeitava sua determinação. Não desistiam nunca. Achavam um jeito de transportar as cargas. O que mais lhe chamava a atenção é que estavam sempre em harmonia. Umas defendendo as outras. O importante era o todo, o conjunto. Uma formiga era apenas uma formiga. Sem vaidades, sem egoísmo. O formigueiro tinha que ser alimentado. O resto era secundário. Sem importância. Deleitavam-se em sua própria rotina. Apenas seguiam.
Estava com fome. Revirou o embornal desbotado. Tirou lá de dentro um pedaço de pão velho. Murcho, duro, guardado há quase uma semana. Roeu a iguaria sem pressa. Apreciava o gostinho salgado de um pão dormido. Talvez fosse aquela a única refeição
do dia. Ia depender da caridade alheia, ou do que coletasse pelos caminhos. Deus havia de prover. Anos atrás, ganhara de presente uma bíblia velha. Lia uns trechos salteados de quando em vez.
Gostava da parte dos lírios do campo. Como eles, não fiava nem tecia. Mas havia sempre alguma boa alma a cruzar seu caminho.
Um pouco de comida, uma muda de roupa velha. Isto lhe bastava. O resto tirava dos matos à volta. Tinha prazer em estudar os detalhes, o vai-e-vem dos seres diversos. Sentia-se parte de um todo. Terra, planta, bichos, homens, nuvens e deuses. Tudo ligado por finos fios. Buscava entender essa teia. Cada passo nessa direção o levava mais para perto do Criador. Sabia-se menor que a semente de mostarda. Mas nunca duvidara que viesse a ter alguma utilidade nos planos divinos. Estava atento aos sinais à volta. Viessem de uma formiga ou de uma nuvem. Para isso, não podia ter pressa. Tinha que ser dono do seu próprio tempo. Esta era sua única posse. A mais
valiosa. Logo acima, pendurada num galho, descansava uma lagarta. Começava a tecer seu casulo. Perdera a conta de quantas vezes acompanhara essa mesma história. Nunca entendera aquele milagre. Sabia apenas que a lagarta fiava sua própria mortalha.
Entrava um ser rastejante, gosmento, cheio de pernas. Como o Mestre, jazia em seu sepulcro até a hora marcada. Lá de dentro, renascia feito borboleta. João não se fartava de olhar. Tinha sempre um gostinho de primeira vez. Dava um nó na garganta. Na multiplicidade dos milagres, cada um era único. Para cada lagarta, uma nova borboleta. Novas asas, figurinos variados. Cada uma flechando o céu de maneira própria. Explodindo em cores. Atores distintos de um mesmo espetáculo. Na platéia, nunca se cansava de aplaudir. De se emocionar.
A esteira amiga já tinha cumprido seu papel. Sustentara seu corpo sobre as lajes frias. Agora velha, estava pronta a seguir sua própria viajem. Com cuidado, ajeitou a companheira debaixo de um pé de pau d´álho. Era só uma questão de tempo. Aos poucos, ela ia virar terra. Depois, talvez virasse árvore, virasse fruto, virasse pássaro e ganhasse os céus. Múltiplos eram os caminhos. Infinitas as encruzilhadas das coisas. Era hora de tecer uma nova amiga. Desceu em direção ao brejo. Escutou o barulhinho da correnteza. Os pés de taboa pareciam um jardim. Brotavam por entre as águas. Como o “caniço agitado pelos ventos”, cumpriam um ritual de batismo. Filtravam as águas. Tiravam delas toda mancha, toda impureza. Pegou o canivete e foi cortando. Depois
era aparar no tamanho certo e deixar secar. Procurou por guaximas no mato ao lado. Da casquinha dos ramos fez uma embira. Cordinha firme, ia dar forma a sua obra. Taboa seca, começa a tecer a esteira. Amarra os pedaços, com ajuda da embira. Naquela noite, teria cama nova. A taboa, agora, ia ter outra missão. Facilitar seu sono. Sustentar suas carnes. Talvez, com saudades do riacho, ajudasse também a filtrar seus sonhos. Por algum tempo, seriam companheiros de viagem.
Nuns ramos acima viu um ninho de trucal. Subiu pelos galhos. Três ovos descansavam entre as palhas. Tirou um e guardou junto a outros no embornal. Dois filhotes bastavam. Facilitaria o trabalho dos pais. Olhou as nuvens. Céu carregado. A noite viria com ventos e trovoadas. Procurou abrigo numa lapa próxima. Acendeu uma fogueirinha, encheu uma lata com água e cozinhou os ovinhos. Iam acalmar seu estômago.
A tempestade foi se formando aos poucos. O céu ia devolver à terra a água tirada pelo calor dos dias. Naquele momento, as nuvens pareciam ter pressa. Queriam retornar de uma vez o que levaram tempos para acumular. O aguaceiro veio forte e, junto com ele, seus arautos: ventos e raios. Os ventos testavam os seres. Talvez o Criador quisesse saber quem merecia continuar vivo e quem devia seguir outros caminhos. Cada um tinha que mostrar sua força. Da erva rasteira à rocha na serra. Ninguém escapava da provação. Entretanto, nessa hora, força era algo relativo. Muitas vezes, a relva que vergara ao chão durante a tempestade, no outro dia estava lá, empezinha. Como se nada tivesse acontecido. Já o rochedo, que se achava todo poderoso, rola morro abaixo com a
ventania. Parte-se num milhão de caquinhos. Paga o preço do seu orgulho.
Os raios lembravam ao João, mensageiros entre céu e terra. Buscavam sempre o caminho mais curto entre esses mundos. Talvez por isso, os ipês fossem seu alvo predileto. As copas eram altas, tocavam as nuvens. As raízes mergulhavam nas profundezas. A missão dessas árvores parecia ser ligar céu e terra. Comunicação
tão poderosa que a morte era conseqüência natural. Necessária.João puxou o cobertor rasgado sob a lapa de pedra. Ajeitou-se na esteira, olhou mais um pouco a chuva e adormeceu. Se fosse da vontade de Deus, a manhã ia trazer outra jornada. Outros
caminhos. Desfrutaria as lições do novo dia. Um bem-te-vi interrompeu seus sonhos. Os primeiros raios de sol vestiam a manhã. O ar estava fresco, lavado. O mundo parecia novo. Recomeçando. João desceu até a estrada. Ziguezagueou entre as poças d´água. A imagem refletida lhe parecia estranha. Barbudo, rasgado, sujo. Não era assim que se
via. Dentro daquele casulo, talvez morasse uma alma de borboleta.
A maioria das pessoas, entretanto, só enxergava a lagarta.Gosmenta, feia, indesejada.
Avistou ao longe uma casinha branca. Conhecia há muito aquela morada. Agostinho Leite e sua família sempre o recebiam bem. Faziam brincadeiras inocentes com o andarilho. João fingia ser meio lento das idéias. Esta era sua forma de lidar com os outros. Posicionar-se sempre um degrau abaixo. Mais tolo, mais lerdo, mais atrasadinho. Com isso, evitava os questionamentos. Explicar não ter morada, família, trabalho, bens. Fugir dos porquês. Porque era como era. Porque era diferente. Do convívio com oshumanos, buscava apenas o essencial. Uns nacos de comida e um pouso de quando em vez. Sem muita conversa. Sempre achara mais fácil se relacionar com outros seres. O bicho homem era muito complicado. Imprevisível. Acostumara-se ao silêncio das estradas. Sentia-se um forasteiro no mundo das pessoas.
Zezinho logo grita no terreiro: ”Oh mãe, João da Lua tá chegano”. Dona Cilene aparece na porta da cozinha. “Bom dia João! Senta aí perto da tuia. Daqui a pouco o almoço tá pronto”! Na maioria das vezes, era esse o único diálogo. João sentava no seu cantinho, meio escondido e apenas esperava. Apenas observava.
Respeitavam seu silêncio. Ele por sua vez, não interferia nas rotinas da casa. Agostinho Leite chegava sujo, vindo dos brejos de arroz. Saudava o andarilho e ia lavar os pés antes de comer. O prato d João vinha sempre mais cheio. Mas com a mesma comida servida à família. Só que em maior quantidade. Sabiam que comida quentinha era coisa bissexta em sua jornada. Incerta. Tinha que ter estômago de camelo. Fartar-se até a próxima parada. Aquela família era humilde. Sem posses. Quase tudo saía do cabo da enxada de Agostinho. Talvez por viverem no limiar da pobreza, entendiam melhor as necessidades do João. Eles próprios já tinham deitado com a barriga roncando. Sem nada nas latas da despensa. Por isso, olhavam o andarilho com naturalidade. Aquele era o dia em que podiam ajudar. Em outros tempos, talvez eles mesmos iam estar à mercê da compaixão alheia. Todos, partes de uma mesma teia. Conectados numa mesma história. João da Lua foi criando uma teoria sobre os homens.
Chamou-a de “Teoria da Distância”. Para ele, a verdadeira caridade era inversamente proporcional às posses. Os iguais se entendiam. Se toleravam. Habitavam mundos limítrofes. Falavam uma mesma língua, tinham dificuldades semelhantes. Naquele ambiente pobre, a compaixão era verdadeira. Sem maquiagens. Sem artifícios.
Apenas existia. No outro extremo, quanto mais aumentava a riqueza mais crescia o estranhamento. A distância. Reduzida era acomunicação. Olhavam-no como de uma outra espécie. Distinta filogenia. Um estorvo a ser mantido ao longe. De preferência, fora das vistas. Migalhas lhe eram jogadas com nojo. Com brevidade. A finalidade do alimento doado não era sustentá-lo. Pagavam com eleprestações ao Altíssimo. Esperavam, em troca, ocultos favores do céu. Não era caridade. Era barganha. Já no extremo dessa escala, João se tornava invisível. Ignoravam-no completamente. Passava a não existir. Cruzavam com ele pelos caminhos como se fosse uma pedra. Um pau. Um nada.
A caminhonete passou voando. Quase atropela o andarilho. Vidros escuros, ar condicionado, carroceria blindada, música no último volume. Recriado lá dentro, havia um outro mundo.
Desconectado. Incomunicável. Ilha urbana perturbando a paz dos caminhos. Lá seguia uma família de posses. Newton era homem da cidade. De idéias grandes. Sentia que o mundo existia para servir a seus interesses. Tudo que não estivesse em seus planos devia ser removido. Apagado. Para ele, homens e mulheres valiam pelo que tinham. Julgava-os pelo seu peso em ouro. Seu desejo de ser sempre maior lhe valeu um apelido. Era conhecido por todos como Newtão. Meses atrás, comprara um mundo de terras por aquelas bandas. Ia mudar tudo. Construir casas, galpões, currais. Drenar os brejos e erguer barragens. Acabar com a gentinha preguiçosa da região. Transformar aquele mato inútil em pasto. Em gado. Em carne. Em dólares. Tudo grande, quilométrico, imediato. E assim fez.
João sentiu uma pontada no estômago. O que era aquilo? O que estavam fazendo? “Tadinha das taboas” ! A máquina rasgava, cortava, destruía. Em pouco tempo, o brejo foi sumindo. Sem choro, sem lamentações, sem saudade. Como se nunca tivesse existido.
Uma a uma as árvores do mato ao lado iam sendo arrancadas. Retorcidas, empurradas. Amontoadas como traste inútil em meio a terra devastada. E as formigas, e as lagartas e os passarinhos?
Para onde iriam, a quem recorrer? João viu seu mundo ruir. Onde andavam os Deuses que nada faziam? E os seus raios, ventos, enchentes? Porque não vinham naquela hora e destruiam esses invasores? Talvez a justiça Divina fosse paciente. Mandaria a conta a prestações. Em secas, miséria, ventos, inundação. João da Lua lançou um último olhar sobre os seres que amava. Sua alma também estava partida. Pranteada. Seguiu como cego pelos caminhos. Queria ir sempre andando. Buscar um outro mundo. Uma
outra história.
Nessa hora, Newtão passa voando pela estrada. Ia para a sede da fazenda. Por segundos se aproximam. João nem parece ver o carro. Fala sozinho, gesticula, protesta impotente. Cada um em seu próprio espaço-tempo. Sua própria dimensão. Prosseguem em direções opostas. Aquelas duas vidas seguiam paralelas. Talvez um dia, se encontrassem no infinito.

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