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sexta-feira, 2 de abril de 2010

O ESPINHO - Cassio C. A. de Negri


O espinho
Cassio Camilo Almeida de Negri

Lá estava ela, a planta, ao redor da casa, mostrando pequenas flores vermelhas, tão insignificantes e muitos espinhos pontiagudos.
Ao ser cortada, jorrava uma seiva leitosa e pegajosa, que todos diziam ser veneno.
- “ Não deixe cair nos olhos que cega, e nem nas mãos, que queima!”, dizia minha mãe em suas recomendações maternas.
-“Cuidado! É cheia de espinhos, pode machucá-lo” dizia ela do terraço. “Essa planta não serve para nada, só para machucar. Nem sei porque a usam nos beirais das casas.
E eu, o menino de dez anos, deitado de costas no monte de areia, olhando para o céu azul, via as nuvens algodonosas a se moverem e a se juntarem umas às outras.
Os pensamentos voavam imaginando se era o vento que movia as mesmas ou se era a terra que rodava, e elas eram fixas no céu, assim como a lua e o sol parecem se mover.
Como menino curioso, sempre pensando e tentando encontrar explicações lógicas para tudo, imaginava porque aquela espinheira existia e qual o seu lugar na criação divina.
Hoje, adulto, deitado na areia da praia, sob o sol causticante da tarde, de olhos fechados e sonolento, sinto uma gota quente a cair na testa. Imagino uma gota de sangue morno me atingindo, o que me leva à imagem do Salvador na cruz, e a gota pingando na sua fronte pelo espinho encravado da coroa-de-Cristo. Estava ali a resposta, tão fácil!
Se não fosse tal espinho, talvez não tivéssemos a salvação. Abro os olhos, passo a mão na testa e amasso um excremento quente com o qual algum pássaro me atingiu.
Pulo enojado, limpo a mão na areia, e quando vou xingar, lembro-me que, se não fosse tal excremento, nunca teria descoberto quão importante foi aquele espinho.
Na missa do domingo, ao fitar a face do Cristo no altar, tive a impressão que Ele piscou para mim.

Um comentário:

Marisa disse...

Cassio, tenho certeza de que Cristo piscou, sim, para você, na missa do domingo. Tão bela a sua compreensão da santa coroa de espinhos! Parabéns pelo texto! Abraços da Marisa Bueloni