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domingo, 25 de abril de 2010

Coração de Pedra


Coração de pedra
Ivana Maria França de Negri

Era um romântico incorrigível, um pobre louco insensato. Sonhava acordado e vivia fora da realidade.
Extremamente tímido, não conseguia se aproximar das moças. Ficava ruborizado, gaguejava, gesticulava demais e acabava sendo motivo de chacota dos colegas e dos risinhos sarcásticos das garotas.
Um dia, tomou-se de ardentes amores e tornou-se escravo fiel de uma bela dama. Ela era perfeita: perfil grego, formas esculturais, pernas bem torneadas e mãos com longos e esguios dedos de pianista.
Todos os dias, no mesmo horário, vinha namorá-la na praça. Gostava de admirá-la à luz do sol. Era muito branca, tez marmórea, delicada e feminina. Ficava horas no banco sorvendo seus encantos, embevecido, admirando sua beleza perfeita, enfeitiçado pelos olhos enigmáticos. Algumas vezes vinha de noite, e ela, pontualíssima, nunca falhava aos encontros. Sempre no mesmo local, as roupas de seda esvoaçantes coladas ao corpo sensual, os longos cabelos soltos e o lânguido olhar distante que o encantava.
O tempo passava e o namoro não saía daquilo. Platônico, olhos nos olhos, tudo com certa distância e respeito.
Como se fosse tomado por um feitiço, venerava-a cada vez mais. Ela, orgulhosa, mirando sempre uma mesma direção mal lhe dirigia o olhar. Fria e desumana, não retribuía seu devotado amor. Ele trazia-lhe flores diariamente. Depositava no banco da praça as mais perfumadas rosas, jasmins e até orquídeas lhe trazia. Ela, altiva, nem dignava-se a mirá-las e elas murchavam quando o sol quente surgia. Seus lábios carnudos, perfeitos para serem beijados, nem ao menos se moviam para lhe agradecer as gentilezas. Não proferia uma única palavra. Como não conseguia atingir sua alma, o moço definhava dia a dia.
Os amigos pensaram que estava a enlouquecer, pois delirava em êxtase de adoração, entre suores e calafrios, e pronunciava palavras desconexas que ninguém entendia.
Um dia encontraram-no caído, olhos vítreos, rígido e gelado como se de pedra fosse. Seu olhar macilento fixava um só ponto: a bela que lhe sequestrara a alma, a escultura de mármore de carrara, esculpida por um artista em homenagem a uma deusa. Apenas um monumento representando uma divindade do Olimpo, sem vida, sem coração.
Quem passava pela praça avistava os dois imóveis, num espetáculo dantesco e ao mesmo tempo comovente. Nunca ninguém presenciara um amor impossível e esquisito como aquele, do jovem tímido e sonhador pela formosa estátua da praça.
Momentaneamente estavam exatamente iguais, ambos frios, pálidos e sem alma...

(Conto premiado em primeiro lugar no VI Concurso Literário Alpas e em segundo lugar pela Academia de Letras de São João da Boa Vista/2001 http://www.alpas.hpg.com.br/vencedoresentrelinhas.htm)

Um comentário:

Laura disse...

Senhores escritores eu já havia lido esse texto aqui mesmo em outubro de 2009 ou me enganei?
sou leitora desse espaço desde a sua criação por isso estranhei.
Laura