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domingo, 7 de março de 2010

A Sustentável Leveza de Ser Mulher - Carmelina de Toledo Piza

A Sustentável Leveza de Ser Mulher
Carmelina de Toledo Piza

A chuva é forte. Levanto, vou ao banheiro. Volto para a cama e pego um livro, começo a ler, não me interessa. Levanto novamente, vou à cozinha e faço um leite morno, tomo. Esquenta o meu corpo frio de desejos guardados da infância. A saudade é mais forte do que a própria verdade que preciso enxergar.
- Quero dormir!
A madrugada é longa, a chuva não pára. O choro arrebata como um animal no ímpeto do cio.
- Preciso dormir! Tenho que trabalhar!
Levanto, o dia está cinza. A dor no peito aperta e não quero falar com as pessoas sobre a minha tristeza.
- O dia é longo!
Volto para casa. Coloco o carro bem em frente ao portão, desço e olho. Lá está: a caixa azul, de fita vermelha e fios dourados.
- Um presente!
Segurei-a com as duas mãos, apertei-a com toda força junto ao meu peito. Abri. No fundo da caixa, uma carta. O silêncio se faz à minha volta. Ouço apenas o sussurrar dos fantasmas da infância, que, imperceptíveis, trazem um murmúrio incrustado em meu corpo: o medo. Sinto as pernas tremerem e o coração descompassado parece saltar aos pulos pela boca. Vou para a cama e leio: Ka, os fatos acontecem em nossas vidas, de uma tal forma que nos pregam de surpresa, totalmente desarmados. Causam tanto impacto, que o preço emocional é inacreditável.
No dia em que nos encontramos, você sentia medo, era uma mulher assustada, desprotegida. Estava frágil e vulnerável. Eu apareço como o homem forte, para protegê-la. Conversamos e não resisti, dei o número do meu celular, com o pretexto de que, se precisasse de algo, me telefonasse. Fiquei um tempo enorme olhando para o aparelho e torcendo para que tocasse. Tocou! Era você!
Feliz em ouvir a sua voz, mas com uma desconfiança: será que ela ligou só porque está com medo?
Sim, liguei porque estava com medo. Medo do mundo, da violência, de tudo. Só não tive medo de ligar e agradecer: pelo carinho, pela atenção e pelo respeito.
A primeira vez, eu não pedi, ele simplesmente apareceu e me deu apoio e segurança. A segunda, ele veio depois que eu liguei. Olhou profundamente nos meus olhos e disse:
- Ka, você confia em mim?
- Sim.
Quando percebi, o vento forte e frio batia em meus braços e pernas, a cabeça balançava pesada segurando o capacete. Estávamos na estrada.
No alto, o céu escuro e aos nossos pés a pequena cidade iluminada. Um ao lado do outro. Aproveito para farejá-lo e identificar o cheiro daquele homem. Tenho a sensação de que já o conheço de um longo tempo. Eu, que esquadrinhava por todos os recantos e encantos à procura de um homem, acabava de encontrá-lo.
Foi uma cerimônia amorosa e definitiva para nós dois, o que poderia ter sido um ato solene, ao contrario, foi alegre, risonho e inesquecível. Juntos, buscamos um espaço próprio. Só nosso. O em torno inexistia e o tempo, parou. Durante horas, ficamos nos descobrindo. Na absoluta intimidade, não pensamos em outra coisa além de nós mesmos, dois companheiros e amantes, dando e recebendo. Na sustentável leveza de ser mulher, abro a minha janela, sinto o sol bater no meu rosto e descubro: amar com o desespero da perda é descobrir o vazio inclemente do espaço que fica quando o grande amor vai embora.

Um comentário:

Mara Bombo disse...

PARABÉNS A VOCÊS MULHERES MENINAS MARAVILHOSAS, MENTORAS DAS PALAVRAS.
FELIZ 8 DE MARÇO
MARA BOMBO