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sábado, 13 de fevereiro de 2010

A longa noite do adeus

A longa noite do adeus...
Maria Coquemala

A menina dorme, meninos já voltaram à escola na capital... Marido se foi, a tristeza o arrastando para longe, não quer vê-la nos últimos momentos. Estou sozinha com ela. Arfa muito, temo que não passe desta noite, a barriga inflou desmesurada, a rústica costura da cirurgia recente quase desaparecendo... Converso com ela em pensamento, pergunto se aguenta o tranco, falo de quanto a amamos, é cedo ainda pra partir... Ela parece serenar, procura se ajeitar... Tento não chorar, vou à sala de TV ao lado, procuro me distrair com um programa qualquer, um filme está ainda no começo, vou acompanhando, a atenção dividida entre a cachorrinha que sofre e a trama do filme, um barco virando, dois meninos envoltos pela água, o afogamento de um, o salvar-se do outro, nadando até a margem...
Volto ao quarto, ali está ela tentando se arrastar até a porta, quer sair, ajudo, vamos juntas até o quintal. Mesmo sofrendo, não quer sujar a casa... Num esforço que a esgota, urina, quer voltar, ajudo, acabo carregando-a nos braços, malgrado o peso... Como engordou nos últimos anos... Sequela das drogas anticoncepcionais, pobre animal, uma única gravidez, mas sete cachorrinhos focinhudos, a marca dos vira-latas... Que ninguém queria... A malandrinha escapou uma noite da nossa vigilância, quase adolescente, mas engravidara, posso imaginar a grande aventura, o parceiro tesudo, o espanto quando tornada mãe de tanto cachorrinho, tantas as bocas, nunca que as tetas descansavam... Pobre Tita... Que altos juros pode ter o preço do amor...
Acomodo-a, volto ao filme, ao menino adolescente com seus traumas, advindos da morte do irmão... Por que não tentara ajudá-lo? As cobranças nos gestos, no silêncio, nos olhares acusadores, até da própria mãe. O irmão, o que era ótimo na escola, o que ajudava nas tarefas domésticas, o que pescava com o pai, o filho bem amado, este morrera... Ele, o preguiçoso, o desobediente, o relapso, sobrevivera, sequer estendera a mão ao irmão se afogando, sequer um gesto, uma tentativa... Confessa ao amigo, talvez melhor seja voltar ao rio, morrer também, livrar-se da cruz que lhe puseram às costas... Volto a me preocupar com Tita, tinha me concentrado mais do que desejava naquele menino angustiado, vítima das contingências da vida... Mas, como pudera esquecer-me dela, um momento que fosse?
Respiração mais acelerada, apoiada nas patas dianteiras, Tita busca sôfrega o ar, mas ar que parece nunca suficiente... Volto à sala, preciso saber o que o menino vai fazer na sua extrema angústia... Lá está o pai com a mala, por algum motivo que já não posso saber, deixa o lar... Espero um pouco, quero saber sobre o menino, se pôs fim à vida, se... Mas preciso ver Tita... E lá está, o ar já não lhe falta, deitada de lado, olhos abertos, imóveis, a boca aberta... Morta. Tento fazê-la voltar à vida, chamo, choro, menina acorda, chora comigo, perdemos Tita... A que um dia chegou à nossa casa da praia, filhote ainda, com sua coleirinha incrementada, a que não tinha dono, ou tinha, mas não encontramos, ou não quisemos encontrar, de tal modo nos apegamos a ela desde o começo. E certamente nos escolhera, assim racionalizávamos. A que destruía meias e sapatos, brigava com os gatos, impunha distância a quem tentava se aproximar, mas nunca, nunca mesmo, tinha mordido alguém. Tita, a que viveu por 12 anos em nossa companhia... A que nos deu lições de humildade, de afeto, de fidelidade estrema... A primeira a correr para o carro, quando nos via pegar uma mala... A que sempre nos acompanhava, aonde quer que fôssemos...
Mal dormi algumas horas... Com a chegada e ajuda da faxineira, a envolvemos em seu cobertorzinho entre as flores que a menina colheu no jardim. Então a levamos de carro a um lugar alto e bonito, onde, sob uma grande árvore, um trabalhador rural nos ajudou a enterrá-la. Restam as doces lembranças da nossa cachorrinha...

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