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domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal vai, ano novo vem - Lino Vitti

Natal vai, Novo ano vem
Lino Vitti


“Tudo muda, tudo passa – neste mundo de ilusão – vai para o céu a fumaça – fica na terra o carvão”. Não sou eu quem o diz. Diz-no-lo o “príncipe dos poetas paulistas prezadíssimo e saudosíssimo Guilherme de Almeida. Tudo muda, sim, e tudo passa, e jamais retorna. Na voragem dos tempos não há volta pois a vida é um caminhar para frente, sempre e para todos. O que fica como fumaça, segundo diz e escreveu o poeta, é a saudade, sentimento profundo que se aboleta na alma e na memória de cada um, para, de quando em quando, ressurgir e invadir o presente, por pouco tempo, talvez minutos, alagando, em geral, de lágrimas os olhos que se aprofundam em ver o que ontem aconteceu conosco de bom ou de mau, de feliz ou de tristeza, de encantado ou de terrível.
A saudade é bom? Ou é um mal necessário? Não sei, e quem o pode dizer são aqueles que compõem versos e estrofes, rimam amores e dores, legam –nos poemas sublimes, sonetos generosos, quadrinhas valiosas, tudo envolto nessa penumbra do passado a que chamamos Saudade. Voltar, fisicamente ninguém volta, mas dentro da arte da prosa e poesia podemos atingir pináculos saudosos, reviver dias e momentos que nos alegraram ou entristeceram e como num vídeo-tape desfilam na tela cinematográfica da nossa memória,
Duas expressões de vida universal que costumam vir povoar a nossa saudade são Natal e Ano Novo. Duas datas sublimadas, constantes, anuais, com que a humanidade se compraz em encerrar um ano e passar para o seguinte, numa sucessão a um tempo feliz e preocupante: feliz porque, em sua imensa maioria, os corações se alegram, celebram, cantam, riem, se abraçam, se cumprimentam, festejam, banqueteiam-se, osculam-se, rezam, enquanto outros, embora em número menor, choram, voltam na saudade, refletem, fazem contas, arquitetam viagens e sonham riquezas vindouras. Contraste do ser homem, esse perpétuo insatisfeito, esse bandeirante da vida em busca de uma felicidade que lhe foge e se lhe esconde, fugaz como o lume de um pirilampo ou o luzir de um relâmpago nas trevas.
Natal foi ontem. Tudo quanto dele poderia nos vir foi enterrado no tempo. Logo mais virá Ano Novo, trazendo malas de bagagens felizes ou não, definitivas ou passageiras, encantadoras ou tristonhas, sabe-se lá o que o amanhã nos esconde e no momento oportuno nos mostra, queiramos ou não queiramos, pois nosso destino é desconhecer o amanhã, entregue aos desígnios de Deus, nosso destino é cultivar esperanças. Nosso destino é caminhar sempre rumo a um futuro incerto e malandro muitas vezes.
Agora, algo de despropósito. No final da Serra de São Pedro, lá em direção a Charqueada, vê-se um monte agudo, chamado Gorita. Quando seminarista cheguei a escalar o fenômeno geológico e de lá, do pico, contemplar a paisagem indefinida em todas as direções. E pensava: isto é o momento que passa , mas vê em todos os pontos cardeais, esmaecido, tudo quando existe lá em baixo. Pode ser comparado ao futuro, espraiado, mas misterioso. Está aí o amanhã com todas as suas nuançes, indecifráveis. Está aí a imagem da vida que se vê, mas não se distingue, que virá mas não se sabe quando. No meio de tudo, se encontram os Natais e Anos Novos vindouros, imprevisíveis, embora para muito felizes e generosos e para outros tristonhos e indefinidos.

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